Direção: Richard Linklater
Duração:1h40min
Plataforma: Telecine (Prime Video)
Intro
Before Sunrise foi criado num período na história do Cinema que eu julgo bastante interessante. Entre 1990 e 2005 (aprox.) os grandes estúdios americanos estavam dispostos a arriscar milhões em novos diretores e roteiros originais. Foi assim que Richard Linklater acabou dirigindo Dazed and Confused (1993) – Jovens, Loucos e Rebeldes.
Após o sucesso do filme o estúdio via Linklater com bons olhos. Aproveitando a situação favorável, Linklater submeteu uma proposta de roteiro para um filme seu com um orçamento bem baixo – baixo para os padrões hollywoodianos – de USD$2.5 milhões. O próprio Linklater comenta em entrevistas que o filme era tão barato, seria uma aposta tão baixa que o estúdio não tinha como rejeitar: Vai que ele acerta um home run?
Assim foi financiado Before Sunrise (1995).

Mas ele acertou um home run?
Financeiramente falando, sim. O filme arrecadou cerca de USD$22 milhões no mundo todo, um retorno de quase 900% do valor inicial. Isso abriu caminho para as sequências Before Sunset (2004) e Before Midnight (2013).
Mas e o que eu achei do filme?
Achei a proposta interessante e a execução ótima. O filme captura aqueles momentos desconfortáveis de quando a gente conhece uma pessoa nova. Os silêncios de insegurança e falta de intimidade de um casal que se conhece com intenções românticas.
O local do filme, Viena, é bem simbólico para o casal de protagonistas. Nenhum deles tem relação com a cidade. É uma cidade que aparece por acaso na rota deles, ela vindo de Budapeste para Paris, ele saindo da Europa rumo aos Estados Unidos. É como se ali, naquele lugar estranho, eles pudessem ser eles mesmos pois ninguém os conhece – inclusive num dos diálogos eles falam disso.
O filme aborda vários temas como a passagem do tempo, morte, amadurecimento, convenções sociais, envelhecer, nosso lugar no mundo, relacionamentos… Por meio desses diálogos um tanto filosóficos e intelectualizados os protagonistas vão aos poucos se abrindo e ambos dizem quem realmente são. Céline é uma mulher neurótica controladora, Jesse é um homem inseguro e um tanto covarde. O interessante é que ambos vencem essas tendências pessoais para ficarem juntos. Jesse toma a iniciativa, convence Céline a vagar por Viena com ele, Céline abre mão do controle para conhecer este homem que a cativou.
Às vezes o diálogo fica um tanto pretensioso, mas acho que faz sentido na história. Os protagonistas são jovens e ambos estão sozinhos – sem namorado(a) – há meses. Estão ansiosos por serem amados e estão, ao que parece, apaixonados. A gente fica meio bocó quando está apaixonado mesmo.
Uma outra forma de interpretar esse ar pretensioso de alguns diálogos é a juventude e uma certa inocência dos protagonistas. Eles não sabem do que estão falando, estão divagando sobre coisas que não compreendem porque não viveram o suficiente para compreenderem. Eles entendem de morte, solidão, etc, num nível intelectual, talvez daí venha o ar de “estou falando algo profundo, não?” de algumas falas.
Talvez eles estejam se abrindo de tal forma um com o outro que eles passam a expressar idéias que não estão muito bem formadas, espécies de palpites sobre temas que os inquietam de maneira sincera.
Mas calma lá, gostei do filme.
Vários encontros com estranhos envolvem algum tipo de arte. Teatro, Poesia, Música, Dança. Não sei o que pensar disso, mas todos os encontros são interessantes e fazem os protagonistas – e o espectador – refletirem sobre os temas que circundam os encontros.
Conclusão
É um filme de um diretor americano, financiado por um grande estúdio americano, tentando fazer Cinema europeu. Algo de não-original, de forçado poderia transparecer, mas o filme como um todo não parece forçado. Pelo contrário, ele parece sóbrio, sutil. As cenas acontecem naturalmente, os encontros com estranhos são naturais, a conversa evolui de forma natural. Observamos duas pessoas se conhecendo em meio às circunstâncias únicas que o filme propõe.
Neste primeiro filme, tudo é potência. Eles não são alguém ainda, Céline luta pra se formar, Jesse quer ser escritor, eles tem esses desejos conflitantes de formar família e viverem solteiros pelo mundo, de serem bons pais e de serem artistas. Isso é próprio de gente jovem que ainda não tem seu lugar no mundo, ou como Olavo de Carvalho classificaria, são sujeitos na quinta camada da personalidade, camada na qual o sujeito expressa vontade de ser alguém. Da distância entre querer ser alguém e ser alguém vem o sofrimento das pessoas nesta camada.
Eu decidi assistir Before Sunrise porque tenho pensado bastante na passagem do tempo e como as coisas mudam, as prioridades mudam, as pessoas mudam, eu mudo. Me interessei pela trilogia “Before”, de Linklater justamente por isso. A cada 9 anos ele lançou um filme retomando a história com as personagens envelhecendo, os atores envelhecendo, o próprio diretor e os roteiristas (Linklater, Ethan Hawke (Jesse) e Julie Delpy (Céline)) envelhecem.
Before Sunrise é um bom filme, e o ponto de partida dessa experiência tripartite. Estou animado para ver a história de Jesse e Céline continuar.
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Um obrigado especial ao amigo anônimo da ABL – o clube de leitura dos rapazes, pela revisão e feedback