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Ao longo dos últimos 12 anos eu mantive alguma forma de jornal pessoal. Para evitar confusões, chamarei de diários. Muito antes disso, eu tive meu primeiro diário.

Esse primeiríssimo diário se perdeu, na realidade eu o joguei fora ainda jovem. Ganhei quando tinha de 5 para 6 anos de idade, quando aprendi a ler e escrever. Acho que fui eu quem pediu pra minha mãe me comprar um diário, talvez eu quisesse imitar o Doug Funny, do desenho animado.

Desde o primeiro diário, se ainda me lembro, a frequência e o formato dos registros variavam muitíssimo. Às vezes eu escrevia sobre a escola, sobre o meu dia, às vezes reclamava de alguma coisa que já não me lembro mais. Lembro de 3 registros com alguma exatidão e vividez, falo deles a seguir.

O primeiro registro que eu me recordo foi o primeiro registro daquele diário. Em específico, o início dele: “Querido diário Pongo, …” Eu achava que era obrigatório começar um diário assim, como eu vi tantas vezes na TV. O diário tinha capa dos 101 Dálmatas, com destaque para o cachorro de nome Pongo, daí o nome do diário.

Trancando o diário havia um cadeadinho, mas era possível ler os registros separando as capas. Isso me deixou com medo das pessoas lerem meus mais profundos segredos de gurí de seis anos de idade, por isso eu tive a idéia estúpida de mentir no meu diário, talvez a minha primeira obra de ficção.

O segundo registro é esta mentira, essa pista errada. Eu falava que gostava de uma guria que nunca me chamou a atenção, e dei detalhes! No texto eu exalto suas qualidades humanas com um “ela é legal” e ainda registro um desejo carnal – sei lá por que – de que eu gostava do “bumbum” dela.

Evidentemente minha irmã leu essa passagem e até hoje acha mesmo que o irmão dela aos 6 anos era um tarado… não mintam, crianças.

Como cronista da minha própria vida, eu não tinha muito o que dizer nem sabia como fazê-lo, então o diário acabava virando scketchbook ou folha de rascunho. Não lembro de algum desenho em específico, mas lembro de um rascunho.

A terceira e última passagem que me recordo do diário são contas de multiplicação. Se me recordo bem, tive problemas em aprender multiplicação na escola, talvez por isso o assunto me incomodasse tanto a ponto de fazer contas fora do expediente.

O fatídico dia, do qual me arrependo muitíssimo, ocorreu em um dia quando eu tinha algo por volta de 13 anos de idade. Eu sentia tanta vergonha daquele diário que numa limpeza de quarto, quando jogávamos folhas e mais folhas de provas, lições e rabiscos no lixo, lembro de amassar meu diário e enfiá-lo numa sacola com papéis por entre o vão que as alças amarradas formavam. Lembro ainda de colocar o lixo na rua e de vislumbrar a capa amassada, traída, rejeitada, dentro do saco de lixo.

Quisera eu ter salvo aquele caderno. Mesmo que na época eu não soubesse o que fazia, a vontade de escrever, de criar, estava lá. Sou mais grato por haver registrado do que triste por ter me livrado dele, mas mesmo assim sinto uma tristeza de luto quando lembro que o diário Pongo já não existe mais.

By caio

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