O jogo não é sobre as regras do jogo; o jogo é sobre como se joga o jogo.
Quem pratica ou praticou alguma forma de esporte competitivo entende que as regras do jogo não são o desafio do jogo. O oponente é o desafio. Como as estratégias e táticas são aplicadas durante uma partida determina o vencedor, não quem mais segue as regras. Se assim fosse, o time com menos impedimentos, faltas e cartões seria o campeão em qualquer torneio de futebol.
–“Então” – dirá o leitor mais afobado – “não é pra seguir as regras?” É óbvio que você tem de seguir as regras numa competição, mesmo porque se você não segui-las, não tem como vencer. Meu ponto do parágrafo anterior é que compliance extremo às regras te prejudica e te impede de vencer.
Cabe um exemplo, mais um sobre futebol:
No fim da prorrogação seu time sofre uma ofensiva que resulta num chute a gol. Você sabe que não há tempo para um contra-ataque, e por isso fica na linha do gol. Seu goleiro numa trave, vc na outra. Na confusão da jogada o goleiro do seu time salta na direção do atacante adversário que num drible tira o goleiro da jogada. Agora são você, o adversário e um gol sem goleiro.
O atacante chuta, no lado onde há pouco ficava seu goleiro, você faz o quê? A) segue as regras, se estica todo mas não impede o gol. Seu time é derrotado. B) mete a mão na bola e impede uma derrota?
Luis Suarez escolheu a alternativa B nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010, contra Gana. Evidentemente, ao esbofetear a pelota, o uruguaio foi expulso do jogo e suspenso por duas partidas. Não jogaria a final caso sua seleção chegasse nela. Não fazia mal. Os uruguaios comemoraram essa infração como quem comemora um campeonato. Suarez, por sua vez, sorria e acenava pra torcida enquanto saía do campo ovacionado e eternizado como herói nacional. O cartão vermelho mais alegre da história do esporte.
Evidentemente os ganeses reclamaram, ficaram indignados. E daí? Espumavam de raiva. Suarez fora expulso de acordo com as regras por colocar a mão na bola de maneira intencional; Gana recebeu um pênalti – como mandam as regras; um jogador de Gana cobrou o pênalti, errou. Como nenhum dos times abriu vantagem no placar no tempo regulamentar, o jogo foi resolvido nos pênaltis – seguindo as regras; Uruguai classificado para as semifinais – dentro das regras.
Assim fica mais fácil de entender por que Mike Tyson dava cotoveladas, Rogério Ceni avançava antes da cobrança de pênalti, Schumacher dirigia feito um maníaco, e toda sorte de atletas são pegos em exames anti-dopping.
Para uns, a distância entre trapaça, atitude antidesportiva e metagame é bem curtinha. Sendo franco, às vezes acho que ela não existe.