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O Forasteiro

Uma das minhas memórias mais antigas, mas não a mais antiga, foi o aniversário de 80 anos de meu avô no sítio do meu tio. Todos os netos e filhos compareceram e ficamos hospedados no próprio sítio do tio. A festa em si foi feita no galpão, esvaziado e limpo para acomodar uma mesa gigante e uma dupla de violeiros num canto iluminado..

Nesse sítio meu tio criava gado, plantava eucalipto, milho e – acho – laranjas. Havia alguns cavalos, poucos, para passeio e para auxiliar na lida.

Meu tio cometeu um erro terrível: nunca morou no sítio. Isso criou uma dinâmica horrível com a população local que o vê como um forasteiro, um turista endinheirado a ser explorado impunemente. Tudo custa mais caro, os furtos são constantes e tudo é difícil, fica pra depois do almoço, ou pro dia seguinte. A cidade é uma cidade turística, então os locais estão acostumados e não sentirem vergonha em arrancar dinheiro de forasteiros que nunca mais voltarão à cidade – o que não é o caso do meu tio, mas isso não importa. Ele não é um dos locais, logo, desonestidade e preço altos são incentivados.

Hoje meu tio nao tem mais o dinheiro, os animais, as lavouras que tinha trinta anos atrás, e essa relação com os locais garante que ele nao conseguirá resolver os problemas do sítio.

Pior ainda: o sítio é o único bem de grande valor que lhe resta. Em breve ele se mudará para o sítio para resolver os problemas do sítio para tentar vendê-lo. Estar no sítio acelera a resolução dos problemas, mas não acho que seja o bastante para tirar-lhe o cheiro de gente de fora.

By caio

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