Comento num post recente sobre como Ray Bradbury recomenda que se escreva com intensidade e vigor (Zest e Gusto). Redigindo o post citado eu acabei me lembrando de alguns casos onde o processo criativo intenso é seguido por situações e fenômenos indesejados. Comento-os abaixo.
Me lembro que Yuri Vieira comenta em “O Exorcista na Casa do Sol” que a poeta Hilda Hilst assumia ares tão intensos quando escrevia que chegava a perder um pouco da sua feminilidade. Eis o trecho:
[…]Dos seus ex-namorados que desapareceram no mundo, esses dois foram os que mais se aproximaram do seu coração. Ao menos foi o que pude depreender de nossas longas conversas. O primeiro também manifestou fortes pretensões literárias e, segundo entendi, não se sentia confortável com as pretensões equivalentes da então companheira. Sempre que ela se punha a escrever, João Ricardo se incomodava tremendamente, até mesmo acusando-a de assumir feições masculinas durante o trabalho. (Dante Casarini, seu ex-marido, também reclamara do mesmo fenômeno.) […] Sua vocação mostrou-se mais forte do que a paixão […] Ela sabia que uma decisão séria, que a lealdade a uma vocação, exige sacrifícios. […] – trecho de “O Exorcista na Casa do Sol“, por Yuri Vieira. Destaques meus.
Lembro de ler em algum post de Stained Hanes no X, provavelmente perdido para sempre, que quando ele escreve um livro ele fica meio esquisito. Fica isolado, alheio ao mundo a sua volta, e que isso é sinal de que trabalho criativo real está sendo feito.
Ano passado eu realizei um desafio de escrita de 50 dias e após concluir meu texto em português, um cansaço mental que eu nunca tinha expertimentado me pegou. Descrevo a experiência num post breve. Reproduzo parte dele aqui:
[…] Acho que terminar o texto em português ontem me deixou muito feliz, tão feliz que hoje eu acordei bem cansado, e fiquei o dia todo cansado. Parecia um cansaço de quando eu viro a noite trabalhando e levanto no dia seguinte completamente moído. Escrevo este texto a noite, às 21:43 e ainda me sinto cansado.
Que coisa terrível é terminar uma obra!
Durante a produção de O Garoto e a Garça, Hayao Miyazaki comenta que o processo criativo é muito estafante, e que ele precisa abrir a mente para buscar as idéias. Porém ele sempre tem medo de não conseguir fechar a mente e ficar eternamente num estado de agitação criativa que lhe deixa ansioso, confuso e até mesmo delirante. Infelizmente não achei trechos da entrevista para compartilhar neste post.