Jornada do herói pra cá, jornada do herói pra lá, fica parecendo que esse é o único framework para criar histórias.
Um outro framework – que eu suspeito ter sido usado amplamente nas histórias mainstream é A Promessa da Virgem e ele contrasta diretamente a Jornada do herói.
Se na JH o protagonista é empurrado por forças externas para a aventura, na PV o protagonista começa a história sendo restrito, limitado pelo ambiente, família, tradições, regras, convenções, etc. Se o Herói é moldado pela aventura, a Heroína (protagonista na PV) começa a história sendo especial e seu objetivo é se livrar daquilo que a limita.
Se o Herói lida com auto-sacrifício, a Borboleta (outro nome para a protagonista na PV) lida com Realização Pessoal.
Elementos narrativos
A Promessa da Virgem foi criado por Kim Hudson como um framework de histórias feminino e está dividido da seguinte forma:
Primeiro Ato
- Mundo Dependente
- Sonho secreto
- Preço da conformidade
- Oportunidade de Brilhar
- Se veste à altura
Segundo Ato
- Mundo/Projeto Secreto
- Mundo da protagonista não a comporta mais
- Pega brilhando
- Abre mão do que a limita
- O mundo antigo vira um caos.
Terceiro Ato
- Momento de dúvida
- Ela escolhe a sua Luz
- Reordenação
- Novo e melhorado mundo
Não só histórias femininas
O framework não se limita a protagonistas femininas, apesar da teoria se refirir à protagonista como Heroína ou Borboleta. O framework pode ser aplicado à histórias com protagonistas masculinos, como no caso do filme Creed (2015):
ATO I
| ATO I | |
| Mundo Dependente | Adonis vive no mundo privilegiado de classe média alta e exige que ele se torne um homem de negócios respeitável. |
| Preço da conformidade | Adonis acaba de ser promovido mas está infeliz. Caso siga nesta vida jamais provará que é filho de seu pai – apesar de ser bastardo. |
| Oportunidade de Brilhar | Nas lutas clandestinas no México ele demonstra seu verdadeiro talento. |
| Se veste à altura | Decide se tornar pugilista e abandona a vida antiga, e as roupas sociais. |
| ATO II | |
| Mundo/Projeto Secreto | Vai para Filadélfia treinar escondido com Rocky Balboa, antigo amigo e rival de seu pai. Realiza lutas profissionais. |
| Mundo da protagonista não a comporta mais | Mary Anne descobre que Adonis largou tudo para ser pugilista e fica claro que o mundo que ela construiu para eles não é o que Adonis quer. |
| Pega brilhando | Identidade de Adonis vaza na imprensa. O mundo descobre quem ele é e começa a prestar atenção nele. A atenção aumenta a pressão sobre Adonis. |
| Abre mão do que a limita | Adonis aceita lutar sob o nome Creed, sobrenome de seu pai que ele não recebeu. Aceita que é filho de seu pai e não deixa o orgulho o limitar. |
| O mundo antigo vira um caos | Mary Anne precisa aceitar os perigos do boxe. Rocky não quer lutar contra seu câncer. |
| ATO III | |
| Momento de dúvida | Briga com Bianca, imprensa o trata como um lutador não-sério. Culmina em Adonis tomando um knockdown na luta contra Conlan. |
| Ela escolhe a sua Luz | Mesmo não podendo vencer a luta, Adonis decide levá-la até o final e se recusa a ser nocauteado. |
| Reordenação | Rocky e Mary Anne aceitam quem Adonis é. Isso faz Rocky encontrar motivação para tratar sua própria doença, como se Adonis o tivesse resgatado também. |
| Novo e melhorado mundo | Adonis não é mais o filho bastardo e playboy de Apollo Creed. Ele é Adonis Creed e criará seu próprio legado sem tentar fugir de quem ele é. |
Crítica ao modelo
Uma crítica comum à PV é que as histórias que o modelo propõe tendem à transmitir a mensagem de que a protagonista é especial e o mundo a coloca pra baixo, enquanto a JH valoriza o crescimento pessoal e o fortalecimento das virtudes.
Confesso que minha primeira impressão foi exatamente esta. Me pareceu que a mensagem das histórias criadas com a PV era bastante nociva, destrutiva e idiotizante. Porém, ficou mais claro para mim a principal diferença entre JH e PV. JH lida com o desenvolvimento de Virtudes e tem como principal instrumento o sacrifício pessoal, enquanto PV lida com amadurecimento e tem como principais instrumentos aceitação e inteligencia emocional.
Conclusão
Existem outros frameworks para se contar histórias, não precisa ficar só na Jornada do Herói, Jornada do Herói, Jornada do Herói. A Promessa da Virgem, apesar do nome, é uma alternativa ao modelo que foi e ainda é usado à exaustão por escritores. Em vez de focar na transformação pessoal por meio do sacrifício pessoal, foca na aceitação e no amadurecimento da protagonista como pessoa. Não é necessariamente algo ruim, mas dá espaço para histórias e mensagens ruins.
