Michael B. Jordan interpretando Adonis Creed
Michael B. Jordan interpretando Adonis Creed

Jornada do herói pra cá, jornada do herói pra lá, fica parecendo que esse é o único framework para criar histórias.

Um outro framework – que eu suspeito ter sido usado amplamente nas histórias mainstream é A Promessa da Virgem e ele contrasta diretamente a Jornada do herói.

Se na JH o protagonista é empurrado por forças externas para a aventura, na PV o protagonista começa a história sendo restrito, limitado pelo ambiente, família, tradições, regras, convenções, etc. Se o Herói é moldado pela aventura, a Heroína (protagonista na PV) começa a história sendo especial e seu objetivo é se livrar daquilo que a limita.

Se o Herói lida com auto-sacrifício, a Borboleta (outro nome para a protagonista na PV) lida com Realização Pessoal.

Elementos narrativos

A Promessa da Virgem foi criado por Kim Hudson como um framework de histórias feminino e está dividido da seguinte forma:

Primeiro Ato

  • Mundo Dependente
  • Sonho secreto
  • Preço da conformidade
  • Oportunidade de Brilhar
  • Se veste à altura

Segundo Ato

  • Mundo/Projeto Secreto
  • Mundo da protagonista não a comporta mais
  • Pega brilhando
  • Abre mão do que a limita
  • O mundo antigo vira um caos.

Terceiro Ato

  • Momento de dúvida
  • Ela escolhe a sua Luz
  • Reordenação
  • Novo e melhorado mundo

Não só histórias femininas

O framework não se limita a protagonistas femininas, apesar da teoria se refirir à protagonista como Heroína ou Borboleta. O framework pode ser aplicado à histórias com protagonistas masculinos, como no caso do filme Creed (2015):

ATO I

ATO I
Mundo DependenteAdonis vive no mundo privilegiado de classe média alta e exige que ele se torne um homem de negócios respeitável.
Preço da conformidadeAdonis acaba de ser promovido mas está infeliz. Caso siga nesta vida jamais provará que é filho de seu pai – apesar de ser bastardo.
Oportunidade de BrilharNas lutas clandestinas no México ele demonstra seu verdadeiro talento.
Se veste à alturaDecide se tornar pugilista e abandona a vida antiga, e as roupas sociais.
ATO II
Mundo/Projeto SecretoVai para Filadélfia treinar escondido com Rocky Balboa, antigo amigo e rival de seu pai. Realiza lutas profissionais.
Mundo da protagonista não a comporta maisMary Anne descobre que Adonis largou tudo para ser pugilista e fica claro que o mundo que ela construiu para eles não é o que Adonis quer.
Pega brilhandoIdentidade de Adonis vaza na imprensa. O mundo descobre quem ele é e começa a prestar atenção nele. A atenção aumenta a pressão sobre Adonis.
Abre mão do que a limitaAdonis aceita lutar sob o nome Creed, sobrenome de seu pai que ele não recebeu. Aceita que é filho de seu pai e não deixa o orgulho o limitar.
O mundo antigo vira um caosMary Anne precisa aceitar os perigos do boxe. Rocky não quer lutar contra seu câncer.
ATO III
Momento de dúvidaBriga com Bianca, imprensa o trata como um lutador não-sério. Culmina em Adonis tomando um knockdown na luta contra Conlan.
Ela escolhe a sua LuzMesmo não podendo vencer a luta, Adonis decide levá-la até o final e se recusa a ser nocauteado.
ReordenaçãoRocky e Mary Anne aceitam quem Adonis é. Isso faz Rocky encontrar motivação para tratar sua própria doença, como se Adonis o tivesse resgatado também.
Novo e melhorado mundoAdonis não é mais o filho bastardo e playboy de Apollo Creed. Ele é Adonis Creed e criará seu próprio legado sem tentar fugir de quem ele é.

Crítica ao modelo

Uma crítica comum à PV é que as histórias que o modelo propõe tendem à transmitir a mensagem de que a protagonista é especial e o mundo a coloca pra baixo, enquanto a JH valoriza o crescimento pessoal e o fortalecimento das virtudes.

Confesso que minha primeira impressão foi exatamente esta. Me pareceu que a mensagem das histórias criadas com a PV era bastante nociva, destrutiva e idiotizante. Porém, ficou mais claro para mim a principal diferença entre JH e PV. JH lida com o desenvolvimento de Virtudes e tem como principal instrumento o sacrifício pessoal, enquanto PV lida com amadurecimento e tem como principais instrumentos aceitação e inteligencia emocional.

Conclusão

Existem outros frameworks para se contar histórias, não precisa ficar só na Jornada do Herói, Jornada do Herói, Jornada do Herói. A Promessa da Virgem, apesar do nome, é uma alternativa ao modelo que foi e ainda é usado à exaustão por escritores. Em vez de focar na transformação pessoal por meio do sacrifício pessoal, foca na aceitação e no amadurecimento da protagonista como pessoa. Não é necessariamente algo ruim, mas dá espaço para histórias e mensagens ruins.

By caio

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