General
No interior as coisas tem ritmo próprio e as pessoas nao se preocupam muito com esse negócio de contratos, cláusulas e detalhes. Por conta disso, um homem que arrendara terras deixou para trás alguns equipamentos e um cavalo feio no sítio do qual não tinha mais arrendamento. O dono do sítio, homem da cidade, não se importava muito, e o cavalo feio foi ficando ali.
Dois dias após o ex-arrendatário sair das terras – largando coisas pra trás – o cavalo feio continuava num cercadinho, sem comida, com água apenas. O dono do sítio se dá conta de que seu cavalo está na cochia, na baia, e aquele cavalo que não é dele corre solto no cercado. Para agilizar a retirada do cavalo feio e das quinquilharias de seu dono da propriedade, o dono do sítio troca os cavalos: coloca o cavalo feio na baia e deixa seu cavalo no cercado.
Eu já ouvira histórias do General, cavalo do dono do sítio, e embora tivesse uma boa idéia de como ele era, minha imaginação – lamento informar – estava muito aquém e não me preparara para conhecer o animal pessoalmente.
Ao longe o caseiro trazia para o cercado aquele cavalo bonito que mal continha seu entusiasmo e trotava aos pulinhos. Mesmo nesse estado de espírito pouco aristocrático, o animal trazia uma presença respeitosa. O caseiro desaparecia ao lado do general. O homem vinha com suas roupas sujas, pele amorenada pelo sol do interior, um boné que um dia fora de jeans, agora todo marrom-avermelhado de terra. Essa coisinha trazia numa cordinha a exuberância encarnada.
Os olhos até cansam de ver a brancura do pelo daquele cavalo forte e bem cuidado. Hipnotizados, e em silêncio, assistíamos o cavalo entrar no cercado e se esticar. Era como se o cavalo quisesse ocupar todo o espaço daquele cercado – uns 2000 metros quadrados – de uma vez. Esticava o pescoço, empinava nas patas de trás e esticava as patas da frente, relinchava. Sentia-se livre, forte, poderoso.
Após os alongamentos, o cavalo dá um longo relíncho e começa a correr acompanhando o perímetro do cercado. Que velocidade! Que graça! Trotava elegante, com vigor, chegando a zunir a crina de tão rápido que ia.
General já ganhara velocidade, estava correndo o máximo que conseguia. Na segunda curva da segunda volta no perímetro as vigorosas pisadas do animal arrancam um torrão de grama do tamanho de um coelho que salta pela cerca fazendo o alasão escorregar. De lado, o cavalo patina uns dois ou três metros até ser parado pela cerca.
Do nosso lado, ficamos apreensívos. Teria o General se machucado feio? Teria quebrado uma perna? O dono do sítio reclamava que teria de ir na cidade e talvez tivesse de usar o seu antigo cavalo, que mantinha na fazenda por questões sentimentais, mas que já era velho e um tanto teimoso.
Para alívio de todos, General levanta-se. Ao ficar em pé o animal olha-nos e desvia o olhar, olha para o outro lado, envergonhado. Continua a rondar o perímetro, dessa vez sem correr mas numa caminhada apressada. O cavalo não se machucou fisicamente, mas estava com o orgulho ferido, recusava-se a olhar para nós. Passava na nossa frente e virava o rosto. Quando ele virava o rosto para não nos ver, achávamos engraçado. Aquele animal exuberante tinha vergonha de ter sido visto escorregando na grama, uma mácula na sua dignidade e nobreza que jamais seria apagada. Nós ríamos.