Não acho que seja coincidência eu perder quase 4 anos de anotações e acesso a vários sites meus no momento em que eu organizo textos sobre a fragilidade das coisas digitais. Não acho que seja coincidência eu encontrar, nesse mesmo período, a notícia da emissora de TV que perdeu acesso a seu acervo digital que estava “na nuvem” – no PC de uma outra empresa.
Essa definição de serendipidade do Priberam está imprecisa. Serendipidade não é apenas descobrir coisas agradáveis ao acaso, não. O termo tem uma conotação mais dramática: Serendipidade é a faculdade ou o ato de encontrar e receber o que você procura ou precisa quando você precisa, no momento adequado. Envolve timing. Descobrir como fazer backup das minhas anotações do Obsidian agora que eu perdi minhas anotações não é serendipidoso. Quando você procura vaga pra estacionar e encontra um carro saindo da vaga, isso é serendipidoso.
Serendipidade pode se referir a temas mais graves. Sempre tive leituras que trouxeram momentos de serendipidade como quando li Crime e Castigo, do Dostoiévski, enquanto morava numa “república” e me achava melhor do que toda aquela gente feia. Ler aquela história me fez perceber que eu me tornava um homem amargurado e perigoso, justificando maldades na minha cabeça mas – diferente do livro – nunca as coloquei em prática – em parte por causa do livro.
Uma outra leitura que trouxe reflexões importantes num momento difícil foram as Meditações de Marco Aurélio. As passagens sobre a morte, sobre aceitar de bom grado o momento da morte e compreender que a vida foi dada e pode ser tirada por Deus a qualquer momento me ajudaram a processar a morte da minha tia. Morte essa que eu presenciei. O luto me levou a criar um site sobre as últimas palavras de pessoas notáveis. Que Deus a tenha em bom lugar, tia Ivete.
Voltando ao tema do post, serendipidade é a companheira da pessoa criativa. Sempre encontramos “por acaso” algo novo e interessante quando nos dispomos a criar algo. O exemplo mais recente que aconteceu comigo foi eu esbarrar “sem querer” no tema da fragilidade das coisas digitais enquanto eu explorava a curadoria e compartilhamento de playlists do Youtube fora do Youtube. De alguma forma as playlists custodiais – que ficam sob responsabilidade e domínio do usuário, não da plataforma – podem passar um sentimento de fragilidade maior do que as playlists “salvas” no Youtube. Dessa observação veio uma série de reflexões sobre o digital: “Mas se o Youtube decide o que fazer com sua playlist, ela não é realmente sua. Se o Youtube quiser ele exclui sua playlist. Se o Youtube quiser ele exclui seu vídeo, seu usuário… Youtube é dono da playlist e permite que você crie, altere e compartilhe… mas por quanto tempo?
Um outro projeto no qual experimentei serendipidade quase que diariamente foi o projeto de fotos diárias em abril do ano passado. Eu não sabia o que fotografaria quando saía de casa, mas eu sabia que teria algo legal para fotografar, e sempre tinha. Encontrar a foto do dia era como ter um déjà-vu, como se eu visse um fantasma da foto do dia mas ele estava com tão pouca opacidade que eu não conseguia identificá-lo, até o momento do encontro, onde o fantasma e meu campo de visão estão perfeitamente sobrepostos, uma imagem só – a foto do dia se revela. Se fantasma passar a idéia de coisa sobrenatural, não está de todo errado. Mas pense em fantasmas como uma memória de algo que você conhece, mas que você não vê no momento. Uma impressão, uma lembrança. Um overlay com pouquíssima opacidade.
Encerramento
Serendipidade é algo muito gratificante. No geral, momentos serendipidosos se fazem sentir como presentes, não como recompensas. Parece que foi sorte, mas nunca é só sorte. Aquela rima que arremata o poema, aquele tema que torna o conto genial, aquele artigo que você precisava ler, o livro que muda sua vida num momento crucial… são todos presentes. Se “A Resistência” tenta te impedir de ser quem você deveria ser, a Musa te auxilia de maneira discreta – sutil – com sussurros de genialidade e pedacinhos de informação.
Neste mesmo artigo, quando comecei a escrevê-lo redigi o resumo do post, escolhi o título e enquanto eu decidia como começaria o ensaio meu telefone tocou (A Resistência). Redigindo este post tenho idéias para posts futuros: “A Resistência”, “Musas” e “Musas x A Resistência”, “Vencendo A Resistência”, “Como agradar às Musas”.
Comecei redigindo 1 post e agora tenho idéias para mais 5, que sorte a minha.
