Depois de perder minhas anotações, um pensamento que me confortou foi lembrar que até mesmo Hemingway já perdera todos os seus textos. Em viagem à Paris, Hemingway levava todos os seus manuscritos numa mala da sua esposa. Ao chegarem em Paris a mala sumiu, ou foi extraviada. Na época Hemingway não era ainda O Hemingway, e ele comenta – não me lembro onde – que perder os manuscritos foi de certa forma libertador, pois aqueles não eram seus melhores textos e alguns deles inclusive eram de um amadorismo doloroso.
O maior autor lusófono da História, Luís de Camões, quase perdeu os manuscritos de Os Lusíadas num naufrágio perto da foz do rio Mekong. Diz a lenda que, em meio ao naufrágio, Camões teve de escolher entre salvar sua amada, Dinamene, ou seus textos. Com coração partido o poeta teria nadado com apenas um braço pois o outro tentava manter acima das ondas os manuscritos da maior obra em língua portuguesa.
Uma outra história de naufrágio é a de Gonçalves Dias, autor da Canção do Exílio (Na minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá…). Em 1864, já muito velho e doente, o poeta voltava para o Brasil no navio Ville de Boulogne, saído da França. O autor trazia os manuscritos do seu próximo livro numa maleta que ele não largava por nada e trazia a chave no pescoço. O navio veio a naufragar próximo à costa do Maranhão. Gonçalves Dias foi a única vítima do naufrágio e seus manuscritos jamais foram recuperados.
Outro autor nacional – autora no caso – teve todo os seus manuscritos destruídos não pela água, mas pelo fogo. Em 1966, Clarice Lispector dormiu enquanto fumava um cigarro. Acordou com seu apartamento em chamas. No seu desespero, a autora tenta apagar o fogo de manuscritos seus com as mãos. Ela viria a ter queimaduras pelo corpo todo. Há relatos de marcas de sangue deixadas no tapete da casa deixadas por Clarice quando ela finalmente abandona a casa em chamas. Clarice ficou em coma por 3 dias e internada por 2 meses se recuperando das queimaduras. A autora quase teve a mão direita amputada devido às queimaduras. Isso não a impediu de continuar escrevendo e publicando livros.
Encerramento
No geral perder seus textos não é o fim do mundo – no caso do Golçalves Dias perder o seu manuscrito foi a tragédia menor. É imporante notar que no meu caso – eu, este grande escritor – perdi minhas anotações que consistiam em idéias, começos de posts, listas de links, links para análise, listas de filmes, listas de livros, etc. Não é algo tão severo como os casos que descrevi na seção anterior deste post. Entretanto, ainda me entristece lembrar do ocorrido, e acho que uma ponta de dor sempre acompanhará esse momento quando eu relembrá-lo. No momento essa tristeza se faz mais evidente. O jeito é deixar esse “luto” durar o tempo dele, e seguir com a vida.
