Acho que é interessante registrar como eu e as pessoas da minha família usamos IA.
Papai
Das pessoas da minha família, meu pai é o que tem menos contato direto e o que menos experimenta IA no seu dia-a-dia. Não faz pesquisas em chats de IA nem procurou aprender a usar IA nas suas tarefas cotidianas. Hoje mesmo fui em sua casa ajudá-lo com seu perfil no LinkedIn. Já o ajudei uma outra vez com o LinkedIn, mas dessa vez usamos a IA de maneiras mais efetivas.
Analisamos seu perfil com IA, pedimos sugestões e geramos alguns textos sobre suas atividades em empresas que ele já trabalhou. Foi bem rápido e bem menos cansativo do que ter de tentar descrever de um jeito que chame atenção dos recrutadores.
Um momento que acredito tenha aberto os olhos de meu pai para as possibilidades que a IA traz foi quando pedimos para a IA dar ênfase numa experiência profissional em específico – é relevante para uma vaga que ele quer se candidatar – e a IA soube criar uma narrativa que fazia parecer que toda a carreira recente do meu pai o preparou para trabalhar naquela experiência relevante, mesmo os cargos posteriores eram reforços positivos sobre as qualidades e responsabilidades do cargo relevante.
Geramos um curriculo novo também. Espero que ele consiga esse emprego novo, ficamos na torcida.
Mamãe
Minha mãe é professora de uma rede municipal da região metropolitana de São Paulo. Durante o lockdown os professores receberam Chromebooks e desde então tem sido incentivados a utilizar recursos educacionais na preparação de aulas e nas próprias aulas.
Minha mãe resiste à idéia de gerar questões de provas com IA. Me parece a postura adequada uma vez que não temos tanto controle sobre o que a IA escreve. A prosa de IA ser horrorosa também é um problema, especialmente para uma professora de Língua Portuguesa, caso da minha mãe.
A coordenadora de ensino – chefe da minha mãe – praticamente forçou minha mãe a gerar uma prova feita com IA. A contragosto, minha mãe gerou a prova mas registrou todo o processo pra se proteger de possíveis repercussões negativas.
Antes dessa prova, minha mãe tentou usar IA para gerar textos de apoio, mas logo desistiu da idéia. A prosa de IA é terrivelmente ruim, mas para um aluno que faz uma tarefa sem prestar muita atenção, pode passar por texto normal. Alimentar a mente distraída dos aluninhos com prosa ruim – numa aula de português! – deveria ser crime. Minha mãe não tem uma opinião tão severa sobre a questão, mas não gosta da prosa de IA, por isso não usa nas aulas.
Irmãzinha
A minha irmã talvez tenha sido a pessoa que sofreu mais com a popularização de IA. Ela trabalha no setor editorial e tem se especializado no setor de livros e materiais didáticos. Ela tem experiência criando roteiros de vídeos educacionais e revisando conteúdo de livros e conteúdo digital.
IA chegou devastando seu setor de atuação. As mudanças não tem sido fáceis e ela conta que o sentimento dentro das editoras passou de uma postura 100% anti-IA, para o uso permissivo (todo mundo usa mesmo, e não tem como saber quem usa IA, então deixa rolar), depois pró-IA (tem que usar IA), e agora estão tentando criar fluxos de trabalho que permitam aos profissionais usarem IA, mas colaborar de formas diferentes além da criação e revisão de textos.
Como há uma linguagem comum e espera-se um estilo próprio em materiais didáticos, os materiais acabam ficando sempre parecidos. Assim, a empresa pode usar os materiais antigos para treinar IAs e gerar novos materiais com o mesmo estilo, mas textos atualizados. Não tem porque colocar 10, 15 profissionais para realizar esta tarefa relativamente simples para a IA.
Minha irmã tem navegado esse terreno de areia movediça com algum sucesso, mas vive falando de sair da área.
Euzinho
Sou programador de games e minha relação com a IA mudou bastante do último ano pra cá, em parte porque eu passei a usar IA de maneira mais efetiva e a entender como controlar os resultados da IA.
No momento termino um freela no qual não digitei uma única linha de código, feito na Unity – uma engine que eu não abria há quase 3 anos.
Acho que não tem mais volta e o que me fez ter certeza de que IA representa um novo paradigma de desenvolvimento de software foi quando fiz a implementação das telas de criação de usuário, login, recuperação de senha e toda a UI deste freela que mencionei apenas descrevendo onde estavam os assets para as telas e após responder quase 30 perguntas sobre o design do jogo que faríamos.
A IA ainda dá caneladas e comete erros bobos, mas quanto mais eu me preocupo em definir as especificações, menos erros e imprevistos ocorrem.
Estou animado com o novo cenário de Desenvolvimento em Software assistido por IA.
