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Já é tarde e eu não consigo pensar em outra coisa. Eu tentei não pensar na situação que descrevo a seguir, mas até a distração que era pra me descansar a mente manteve o encontro com esse homem que nos visitou no começo da noite.

Dia das mães. Estamos minha irmã, minha mãe e eu na casa de minha mãe. Almoçamos bem tarde, quase 17h, e ficamos conversando na área de serviço vendo o meu cachorro que se entretém ora no jardim/horta de minha mãe, ora entre a gente. Chovera o dia todo e desde ontem enfrentamos um frio repentino. Hoje, segundo estimativas, terá mínima de 14ºC. A chuva pode persistir até de madrugada. Melhor tirar o cachorro da chuva. Deixo o cachorro entrar na casa e fecho o acesso à horta, onde ele se molharia.

Por volta das 19:30, vou para casa alimentar meu cachorro – moro no mesmo terreno que minha mãe, na casa da frente. Enquanto eu espero o cachorro comer, a campainha da casa toca e isso me irrita: quem vem pedir coisa no dia das mães? Um homem de moletom com capuz vermelho está no portão.

Falo com ele da varanda e entendo quase nada do que ele diz. Entendi que ele estava com frio e que a chuva molhara suas coisas. Ele me pede algo para se cobrir a noite, qualquer coisa, “pode ser um lençol”. Digo “vou ver o que eu consigo pra você” e falo com minha mãe. Ela arruma um edredon velho que tínhamos, uma toalha pra ele se secar, uma toalha de praia para ele cobrir o chão ou se enrolar, umas roupas pra ele vestir.

Vou na casa dos fundos e volto com tudo isso numa sacola plástica. Na garagem vejo o homem e enquanto eu subo para pegar as chaves do portão ele pede um copo de água. Encho um copo de água e desço para entregar a água e as roupas pra ele. Ele não está mais no portão.

Saio na rua. Duas casas acima da minha, na frente de uma casa desocupada, vejo o homem mexendo numas sacolas no chão. Hoje não tem lixo, aquilo devem ser as coisas dele. O que consigo deduzir é que ele está morando na rua a pouco tempo e esse frio e chuva o pegaram desprevenido. Ele me vê e vem me encontrar.

Entrego o copo de água e ele bebe tudo na hora. O copo é um copo de plástico promocional vermelho de uns 500ml que eu comprei há menos de 1 ano. Gosto muito dele. Falo para ele que se tiver serventia ele pode levar o copo também, ele diz que tem serventia e me agradece. Entrego as coisas pra ele e noto que ele segura o choro. Ele abre o coração: Fala da vó que morreu; que suas coisas todas molharam; que não está recebendo um benefício porque perdeu o RG; e termina com “morar na rua não é vida.”

Eu o escuto pacientemente e depois do seu desabafo ele encosta a cabeça no meu ombro e me abraça com uma mão apoiada no meio das minhas costas. Eu o abraço com uma mão também. Não sei como reagir, mas sinto que devo consolar aquele homem.

Ele não fedia a droga, nem a bebida, só cheirava um pouco a suor. Eu não tive motivo pra não abraçá-lo com os dois braços, mas não o fiz, mas também não o afastei.

Pelo que eu consegui deduzir, ele morava com a avó e neste dias das mães está sozinho. Talvez seu primeiro dia das mães sem sua avó que – deduzo – cuidou dele a vida toda.

Ele encerra o abraço com olhar bastante triste, eu sinto meus olhos marejando e não consego pensar em algo melhor para dizer além de “tudo de bom.” Nem um mízero “Deus te proteja”, ou “fica com Deus” eu consegui dizer.

Nos separamos. Volto para a casa da minha mãe e falo sobre o homem que encontrei a pouco, mas omito o abraço. Não sei por que. Me despeço da minha mãe e irmã e vou pra casa. Abro o Youtube procurando algo para me distrair e assisto um vídeo do Kaio D’Elaqua sobre uma lavanderia e centro de serviços para moradores de rua.

Termino de assistir o vídeo e escrevo este texto.

By caio

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