A rede de cinemas burlou as regras? Não. Esse deveria ser o fim da história, caso encerrado. Mas acho que vale o registro dessa treta.

Com a desculpa manjada de “incentivar a cultura nacional”, foi criada a lei 14.814/2024 que estabelece a Cota de Tela. Essa lei obriga os cinemas a exibirem filmes nacionais em ao menos 16% de suas sessões anuais.
O cinema é um negócio bastante sazonal pontuado pelas férias escolares e lançamentos dos grandes estúdios americanos. Os meses que geram mais dinheiro para os cinemas são Janeiro, Dezembro e Novembro (férias escolares) e Julho (Summer Blockbusters nos EUA e recesso escolar). Assim, esses quatro meses concentram o faturamento que sustenta os cinemas ao longo do ano.
O que o Cinemark fez, nos meses de pouco movimento foi exibir o longametragem animado Zuzubalândia – O Filme (2024) em várias sessões, a maioria entre 11h e 14h45, horários de pouquíssimo movimento. Segundo a Folha, neste ano o filme foi exibido 17.237 vezes em toda a rede e teria um público de 1.882 pessoas.
Essa estratégia é muito boa para os cinemas pois libera os horários “nobres” para exibição de filmes com público potencial maior. Ou dito de outro modo: deixa as sessões nos melhores horários para filmes que O PÚBLICO QUER ASSISTIR.
Punições
Não há punições porque o Cinemark não violou nenhuma lei, nem norma nem coisa alguma. A rede de cinemas seguiu as regras À RISCA. Mas isso não é o bastante.
Mudanças nas regras
Depois da Folha dedurar a maior rede de cinemas do país, as regras da Cota de Tela mudaram. Filmes nacionais exibidos depois das 17h (horário nobre) contam como 1,1 na contagem da cota. Filmes nacionais exibidos entre a segunda e quinta semanas cinematográficas (semanas após a estréia do filme no cinema) recebem acréscimo de 0,025 na contagem de cota. Filmes com prêmios reconhecidos pela Ancine tem acréscimo de 0,15 na contagem – filmes com mais chance do público querer assistir.
Ninguém assiste esses filmes
Em 2024 e 2025, o cinema brasileiro ocupou 15,7% das sessões em todo o país, mas só 10,1% e 9,9% do público respectivamente. Em 2026 apenas 6,5% do público foi assistir filmes nacionais.
Incentivo real
Você sabia que mais de 40% do preço do ingresso do cinema são impostos?
Num Cinemark próximo de onde moro, o ingresso custa R$50. Sem impostos eu poderia ir no cinema com R$30.
Por que não fazer uma campanha REAL de incentivo ao cinema? Porque não remover os impostos dos ingressos nos meses de pouco movimento? Por que forçar os cinemas a exibirem filmes que as pessoas não querem assistir?
Os reais prejudicados
O Cinemark é uma rede de cinemas e tem telas suficientes para equilibrar essas demandas estúpidas do governo. Mas e os cinemas pequenos, essa espécie em extinção? Antigamente era comum haver cinemas em cidades pequenas. Não raro, em cidadezinhas minúsculas, era comum haver apenas 1 cinema com apenas 1 tela exibindo filmes. Para cinemas menores cada sessão conta.
Esses “incentivos à cultura” criam barreiras contra pequenos cinemas. Essas regras LITERALMENTE impedem que cinemas pequenos surjam em cidades pequenas e afastadas.
Também impedem a criação de cinemas especializados. Por exemplo, um cinema especializado em filmes de anime seria inviável nos dias de hoje.
A multa para quem descumpre a “Cota de Tela” é de 5% da receita bruta média diária x o número de sessões em falta. Não é algo trivial.
História recente
A Cota de Tela surgiu em 1932, no governo Vargas, e vem sendo reformulada e revivida desde então. Apesar do objetivo atual da cota ser o “fomento à cultura”, pouquíssimas pessoas saem de casa para assistir filme nacional.
As pessoas que eu conheço que foram no cinema ver um filme nacional “recentemente” são minha mãe e minha irmã que foram ver “Ainda Estou aqui”, em 2025 numa sessão com ingressos a 10 reais há 15 dias da premiação do Oscar na qual o filme concorreu a melhor filme. Não fosse o ingresso mais barato e o hype do Oscar, elas não teriam visto o filme.
Conclusão
O Cinemark não infringiu regra nem norma nem lei alguma, mas os burocratas decidiram que o jeito que a rede seguiu as regras não é o jeito certo. Novas regras surgiram de modo a forçar filmes que a população não quer assistir goela abaixo.
Se o objetivo fosse fomentar a cultura, a medida mais óbvia seria diminuir ou remover por completo os impostos sobre os ingressos, mas diminuir a arrecadação é pecado mortal enssa administração, então não será feito.
Links
Fracasso de filmes nacionais faz cinemas criarem “jeitinho” para driblar Cota de Tela
https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/fracasso-de-filmes-nacionais-faz-cinemas-criarem-jeitinho-para-driblar-cota-de-tela/
Lula sanciona lei que estende até 2033 cota de filmes nacionais em cinemas — Senado Notícias
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/01/16/lula-sanciona-lei-que-estende-ate-2033-cota-de-filmes-nacionais-em-cinemas/
Cinemark usa animação nacional para cumprir Cota de Tela – 06/05/2026 – Ilustrada – Folha
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/05/cinemark-usa-brecha-na-cota-de-tela-e-exibe-filme-de-2024-mais-de-cem-vezes-ao-dia.shtml
Edição 1449 – 25-08-2025 | Filme B – o maior portal sobre o mercado de cinema no Brasil
https://www.filmeb.com.br/boletim/edicao-1449-25-08-2025
Quase metade do valor cobrado em ingressos é de impostos – Cultura e Mercado
https://culturaemercado.com.br/quase-metade-do-valor-cobrado-em-ingressos-e-de-impostos/