Sábado eu fui no centro da cidade alugar um terno para um casamento ao qual fui convidado. Fomos eu e meu primo, o noivo, e depois de resolvermos o terno fomos almoçar lá perto. No caixa do restaurante há alguns materiais de divulgação de negócios locais e folhetos em geral. Um que me chamou a atenção é um do Seicho-no-ie com um caça-palavras enorme na capa. Folheio o livreto e não há mais jogos, uma pena. Deixo no balcão mas e pego o folhetim do lado. Esse segundo folhetim é um jornal de cupons de negócios locais, curiosidades da copa do mundo e passa-tempos. Na contra-capa tem um jogo. Na hora o jogo causou alguma impressão, mas voltando do almoço eu não dei muita importância. Depois me dei conta dos problemas desse design.

Talvez eu seja uma das poucas pessoas no país que tenha se dedicado à criação e publicação diária de jogos de Palavras Cruzadas. Seguro dizer que conheço o jogo de forma mais aprofundada. Mas mesmo alguém que não tenha experiência semelhante com Cruzadinhas sabe identificar um problema flagrante nesse do folhetim: As respostas não deveriam estar preenchidas na grelha.
Um outro aspecto bem capenga deste jogo é que as letras não formam palavras ou adicionam letras a mais no começo ou fim das palavras, Algo impensável num jogo feito por uma pessoa. Um outro detalhe é o uso inconsistente de acentos. “Dogão” aparece sem acento, enquanto “União” aparece acentuada.
O Folhetim todo foi ilustrado por IA. Desde o logo até as ilustrações secundárias e até mesmo uma imagem “Rumo ao hexa!” com imagem do Neymar foram visivelmente criadas com IA. Esse jogo, deduzo, foi o resultado de um prompt de IA e a revisão foi inexistente. Parece que a IA misturou Palavras Cruzadas com Caça-Palavras e gerou um meio termo esquisitão.

Além do layout bizarro, a ilustração em si tem problemas. Imagino que a famosa ponte metálica de Osasco tenha sido uma referência, tanto é que há pontes na ilustração. Mas as pontes usadas não respeitam o icônico design da ponte osasquense nem a ponte metálica não passa sobre água, na vida real ela passa sobre avenidas.
IA sem conhecimento técnico
Esse “jogo” nesse folhetim exemplifica bem as limitações da IA. Quando a pessoa comandando a IA não tem conhecimentos técnicos sobre as tarefas que delega à IA ela não tem capacidade de saber se o que foi gerado está bom. Este caso do jogo mal feito é um caso inócuo, mas este tipo de problema pode aparecer em material gerado por IA e não se limita apenas à ilustrações.
IA é notória por delirar, isto é, ela traz informações incorretas, inventa eventos, pessoas, muda causas e efeitos… Ela fala abobrinha. Caso a IA faça um resumo e a pessoa controlando as gerações da IA não revise o texto de forma adequada, essas imprecisões e erros serão passados adiante. Esses delírios são mais comuns em assuntos pouco documentados, na recontagem de eventos ou após inúmeras iterações. Um exemplo muitíssimo recente aconteceu comigo quando eu pedi pro Claude criar uma chamada para um post meu para o LinkedIn – o post é o sobre Conteúdo Custodial. O texto gerado invertia as definições de conteúdo custodial e não-custodial. Provavelmente a IA deu essa canelada porque o conceito é novo e não fez parte do material usado no treinamento prévio da IA.
Conclusão
A idéia de que Inteligência Artificial vai acabar com todos os empregos me parece bastante exagerada, pois sempre haverá a necessidade de pessoas para controlar as gerações de IA, revisar o que foi gerado e validar o que foi gerado e revisado. Esse folhetim e o caso do post para o LinkedIn exemplificam bem essa dinâmica.
IA deve ser tratada como um funcionário Júnior: ele tem capacidade de executar as tarefas que você quiser, mas seu trabalho deve ser revisado e validado por pessoas mais experientes que são, de fato, os responsáveis pela tarefa.
