Comprei um gravador de voz e tenho mantido notas de voz. Noto como eu fico mais introspectivo gravando as notas de voz do que escrevendo no meu diário. Acho que isso acontece porque não tenho o mesmo tempo entre o que penso e seu registro. Meu filtro pessoal é quase totalmente removido.
Fico também mais emotivo: a raiva vem mais pujante, a tristeza mais debilitante e as pequenas mentiras que a gente conta pra gente ganham dimensão insuportável. Pensar uma mentira conveniente exite um certo esforço mental, dizê-la em voz alta praticamente te obriga a se remendar e parar com a enganação, mesmo que benéfica num primeiro momento. Dizer uma mentira que a gente acredita – ou se esforça por acreditar – há anos e em seguida desmentí-la é catártico. Corrigir o registro é quase uma obrigação. Inclusive era assim que os espiões russos conseguiam informações, mas não cabe aqui.
Não tenho o costume de ouvir minhas notas de voz. Nem sei se quero. Os exercícios de sinceridade e honestidade que a gravação dos áudios me impõe já são recompensantes por si mesmos.