Há quem acredite que as 24 horas do dia são as mesmas para todas as pessoas. Há quem acredite piamente que a produtividade de 1 hora trabalhada é equivalente a outra 1 hora trabalhada. Isso até faz sentido num contexto industrial – mesmo que não seja 100% verdade.
Para pessoas criativas – designers, ilustradores, artistas, programadores, escritores – uma verdade auto-evidente é que nem todas as horas são igualmente produtivas e a variaçãode produtividade pode ser monumental.
Lembro que em uma das empresas na qual trabalhei tínhamos uma reunião às 10 da manhã. Isso corroía a produtividade da empresa de maneira catastrófica. Quando conseguimos mover a reunião para as 11h “milagrosamente” nossa produtividade aumentou e aumentou novamente quando a jogamos para as 11:30.
Na primeira mudança de horário a única mudança foi o horário. A segunda mudança nos forçou a concluir a reunião em 30 minutos, o que nos fazia perder menos tempo ociosos (na reunião). Depois da segunda mudança de horários, eu notei um aumento na minha produtividade após almoço, e outros colegas sentiram o mesmo também.
Quando fazíamos a reunião às 10, meu dia era assim:
Entro às 8, paro às 10, volto a trabalhar às 11, paro ao meio-dia, volto a trabalhar às 13, saio do trabalho às 17.
No meu momento mais descansado e produtivo (manhã) meu trabalho era constantemente interrompido. A reunião das 10h garantia que eu não conseguiria resolver problemas difíceis pela manhã. O pior que poderia acontecer era eu bater cabeça para resolver um problema, desenhar uma solução e no meio da implementação eu era obrigado a parar meu trabalho e entrar na reunião. A reunião me tirava do headspace e me impedia de atingir flow. Com o tempo isso vai condicionando a gente a NÃO atingir flow. O corpo e a mente se adaptam a não se concentrar muito numa tarefa pois a interrupção programada vai te tirar da task.
O pior das reuniões era que muito do que era discutido não me interessava. Era uma reunião para a gestão saber o que todos estão fazendo – pra ser mais preciso, era pra gente achar que eles sabiam o que a gente estava fazendo. A empolgação de encontrar e resolver um problema complexo dava lugar ao marasmo e cansaço de mais uma reunião desnecessária.
O trabalho criativo/intelectual se beneficia grandemente de alocações grandes de tempo. Uma seção ininterrupta de 4 horas vale muito mais do que 4 seções de 1 hora. Quanto mais tempo ficamos numa tarefa intelectualmente estimulante e um tanto desafiadora, mais compreendemos a tarefa e suas peculiaridades e conseguimos tomar decisões mais assertivas durante o processo criativo.
Além disso, o cérebro demora algum tempo para trocar de tarefas de modo que os primeiros minutos (entre 5 e 30) de uma nova tarefa são necessários para que possamos focar na nova tarefa. Esse período não é muito produtivo. Assim, quanto mais a gente troca de tarefas – trabalho, reunião, trabalho, almoço… – mais a tempo a gente gasta nesse período de construção de foco.
Esses períodos de construção de foco são cansativos. Quanto mais trocas de tarefas, mais cansados ficamos. Isso traz problemas pois além do esgotamento mental passamos a cometer mais erros e a tomar decisões piores quando estamos cansados. A força de vontade é um recurso limitado e deve ser respeitado sob pena de darmos um monte de caneladas nos nossos projetos.
Lembro de um treinamento no qual o imbecil que nos treinava dizia que “não é porque só faltam 15 minutos pra ir embora que seu dia acabou”, o que como conselho geral parece algo razoável de se dizer, mas faz questão de ignorar o contexto, o estado físico e mental do profissional, como o profissional será cobrado e o que acontece na empresa naquele momento – talvez não faça sentido antecipar uma tarefinha da semana que vem durante um deploy em produção.
15 minutinhos no final do dia são muitíssimo menos produtivos do que 15 minutos no começo do dia, e as chances de vc fazer uma burrada pra ir pra casa logo não devem ser desconsideradas.
Encerramento
1 hora é diferente de 1 outra hora porque o contexto e o profissional não são os mesmos nas duas horas sendo comparadas. Além disso, trocar de tarefas é uma atividade que cansa, e profissionais cansados cometem mais erros e produzem menos. Cabe a cada um compreender seus limites e tentar ao máximo possível criar blocos de horas de trabalho ininterruptos a fim de não comprometer sua produtividade.