Não sou ávido leitor de poemas, mas alguns poemas me são caros. Falo sobre alguns deles neste post.
Do Not Go Gentle into That Good Night, de Dylan Thomas
Em certo momento eu percebi que o que eu mais queria da vida era uma vida sem grandes eventos, sem tribulações, sem… vida. Uma vida sem a agitação da vida, sem as inquietações de estar vivo.
O texto que me deu esse estalo, essa caída de ficha monumental foi este poema. Eu percebi que eu queria apenas “[to] go gentle into that good night” quando reparei que nenhum dos homens que lutavam contra o fim da vida se parecia comigo. Veio a conclusão: nenhum se parecia comigo porque eu não lutava contra a morte, não estava vivendo e nem tentando viver.
Às vezes, quando tenho receio, preguiça ou vergonha de fazer algo que eu sei que devo, ou algo que me fará crescer como pessoa os dois versos finais deste soneto vem a mente. Parece que o poema fala comigo: “Reaja, arrombado!”
Abaixo, soneto na íntegra:
Do not go gentle into that good night, de Dylan Thomas
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Cansaço, de Francisco Filinto de Almeida
Mais um soneto, dessa vez em português. Essa questão do cansaço na velhice é algo que tenho notado. Não estou propriamente na velhice, nem me sinto tão cansado ou tão pessimista como o poema narra, mas de fato às vezes as coisas que faço ficam aquém do esperado, e se muito descanso esse mesmo descanso excessivo volta pra me assombrar e acaba me cansando mais no fim das contas. O soneto fala também de um cansaço por inércia e repouso. Aos poucos a própria inércia e o repouso tornam mais difícil vencê-los.
Ou como diria o Palhaço “A gente tem que ficar na ativade pra continuar na ativade.”
Segue poema na íntegra:
Cansaço, de Francisco Filinto de Almeida
A velhice é cansaço… E esse cansaço
Não nos vem de trabalho ou movimento…
O que ora faço é demorado e lento
E acho mal feito o pouco que ainda faço.Tudo me cansa: — até o pensamento!
Já pouquíssimo ando e arrasto o passo…
Quase sempre dorminte ou sonolento,
Vivo uma triste vida de madraço.Nunca fui mandrião nem calaceiro,
Nem também muito ativo, é bem que o diga,
Mas domei sempre a inércia, sobranceiro.Agora, a própria inércia me castiga,
Pois se acaso repouso um dia inteiro
Esse mesmo repouso me fatiga!
Com Deus me deito, cordel
Ainda rezo essa breve oração ensinada pela minha vó Antônia quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade. Uso ela principalmente quando me sinto triste ou sem vontade de rezar antes de dormir – ela é tão curtinha que dá vergonha de não rezar.
Pesquiso sobre essa oração e descubro variações dela. Acho curioso. Pra mim o objetivo da oração era ser uma oração suscinta e breve mas algumas variações mais do que dobram a quantidade de “versos”.
Considero essa oração um poema por conta de seu ritmo e rimas.
Com Deus me deito,
Com Deus me levanto
Com a [Na] Graça de Deus
E do Espírito Santo
Amém