Bob Esponja gangster, remasterizado pelo chatGPT
Bob Esponja gangster, remasterizado pelo chatGPT

“Eu não teria coragem de cobrar por um serviço feito com IA”, desabafa o colega que me olha em busca de simpatia. Dou um riso divertido e digo “Eu tenho. E cobro!” para o espanto do amiguinho.


Não posso me dizer especialista em IA, mas faço uso diário de IA e tenho trabalhado com IA há pelo menos 2 anos. Desenvolvimento assistido por IA é o padrão do mercado e quem não usa IA – em muitas empresas – é visto como atrasado ou menos produtivo.

Vindo da área de programação e desenvolvimento de software, acredito que eu tenha uma compreensão mais precisa sobre as capacidades de IA e seus benefícios. Não há problemas, na indústria na qual me encontro, de usar IA no trabalho. Ou dito de outro modo, usar IA para ganhar dinheiro é algo que não traz deméritos.

A leitura menos generosa do trabalho feito com IA parece considerar que o contratado não adicionou valor suficiente à transação. O contratante quer algo, o contratado pede pra IA, a IA faz pra ele, ele manda pro contratante, o contratante paga o contratado.

É difícil argumentar que não há valor adicionado. Digamos que o contratado apenas traga o valor da IA para o contratante. Trazer o valor é uma forma de trabalho pois o contratante não sabe ou não quer fazer o trabalho de trazer o valor da IA para si, por isso delega para o contratado.

Uma outra razão para descreditar o trabalho feito com IA, me parece, é uma crença de que a IA “fez tudo”, ou de que a pessoa automatizou tanto o trabalho que – para fins de argumento – o trabalho de uma semana foi feito em um dia. Assim, não é justo cobrar uma semana de trabalho por algo que se fez em um dia. Parece um argumento razoável, mas ele ignora o problema central do trabalho: não troca-se horas por dinheiro, troca-se valor gerado por dinheiro. Seria injusto punir quem faz uma tarefa ou entrega mais rápido só por tê-las feito mais rápido.


“A IA fez tudo” é uma idéia curiosa. Anos atrás uma brincadeira comum era dizer que os programadores seriam substituídos por engenheiros de prompt – profissionais especializados em “pedir as coisas” pra IA. E eis o detalhe importante: saber pedir pra IA.

Um ditado bastante comum repetido nos cursos de programação e de gestão é “o importante não é saber apertar parafusos. O importante é saber qual parafuso tem que apertar”. “Pedir pra IA” não é tão simples quanto aparenta, e não leva em consideração o troubleshooting e iterações sobre o que a IA regurgita para o usuário. Não é só “pedir” que a IA entrega. Tem que passar referências, montar uma base de conhecimento, usar o modelo e o serviço corretos, o nível de esforço adequado, para então “pedir”. Esse “pedir” implica explicar o resultado desejado, o método para atingi-lo, passar orientações estéticas/estruturais/arquiteturais, casos de uso e quaisquer outros detalhes importantes. Mesmo o “apenas pedir” envolve muito trabalho. Não é “apenas pedir” é “saber pedir direito” e, mesmo pedindo direito, há a necessidade de revisão e iteração sobre o que a IA retorna. Tem que saber qual parafuso apertar, e se a IA apertou direito.

Encerramento

Não pense o leitor que sou à favor do uso indiscriminado de IA. Entendo que a IA é uma ferramenta de automação sem igual na história da humanidade e tem potencial de beneficiar todas as atividades produtivas contemporâneas. Porém, tem o potencial de limar talentos e prejudicar o desenvolvimento pessoal, profissional e artístico das pessoas. Um escritor que deixa a IA escrever por ele logo tornar-se-á dependente da tecnologia. Usar a IA para que a IA se expresse por você é extremamente nocivo e te impede de compreender o que você quer expressar e de compreender como o que é dito afeta as pessoas ao seu redor, bem como a si próprio. Usar a IA para mandar os parabéns para alguém, para responder uma indagação da esposa, para se comunicar com os filhos, é estupidificante e brutalizante.

Entretanto, na mão de pessoas experientes, a IA é uma ferramenta de automação e deve ser usada como tal, para automatizar as tarefas repetitivas, burocráticas ou tarefas não cruciais que tomam seu tempo e reduzem sua capacidade mental para criar valor onde realmente importa.

Ganhar dinheiro com IA não é errado, e você não deveria sentir vergonha de trabalhar com assistência de IA, contanto que isso não prejudique o desenvolvimento de habilidades pessoais, artísticas e profissionais.

By caio

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