Não gosto dos seus filmes, nem do autor. Então por que eu me interesso por Kevin Smith?
Tem algo de admirável e de trágico em Kevin Smith. Um cara comum, sem contatos e sem experiência escreve e dirige um filme financiado com dinheiro de cartões de crédito e crédito estudantil; consegue vender este primeiro filme para um grande estúdio; vira um dos diretores mais populares de Hollywood; entra numa espiral de decadência; e termina como podcaster e nóia profissional.
Potencial desperdiçado é sempre algo triste, mas é outro nível quando “o próximo Scorcese” derruba a paçoca. O motivo desse declínio é, em grandessíssima parte, o consumo diário de maconha.
As diferenças no modo como Smith se apresenta e como ele fala antes e depois de se drogar em tempo integral são brutais. No fim do post deixou 2 vídeos, num onde Kevin Smith ainda não fazia uso contínuo de Cannabis [1] e outro após aproximadamente 16 anos fumando diariamente [2].
Antes da droga ele era mais calmo, menos expressivo. Ele falava como alguém que pondera suas palavras antes de dizê-las. Na nóia ele vira outra pessoa: Sua personalidade fica mais expressiva, ele mantém sua eloquência, mas fala muito. Parece também que a todo momento ele quer que o interlocutor goste dele e para atingir esse efeito lança mão de piadinhas auto-depreciativas e anedotas.
Com o tempo, Kevin Smith parou de escrever roteiros baseado em suas experiências pessoais e partiu pra ficções cada vez menos ancoradas na realidade. Até mesmo Dogma, seu filme que retrata a jornada de dois anjos caídos em busca de uma brecha que lhes permita voltar ao céu, é toda temperada e inspirada nas experiência pessoais de Kevin com religião.
Yoga Hosers, um filme mais recente, é sobre duas jovens atendentes de um mercadinho que estudam yoga e enfrentam mini vilões. O filme se passa no Canadá, talvez porque represente isolamento e faça um contraste com New Jersey, onde a maioria de seus filmes acontece. Pode ser também porque boa parte do público fiel de Smith seja canadense – mas isso é chute meu. De qualquer modo, Kevin escreve sobre a vida de duas garotas canadenses que fazem Yoga. O único aspecto próximo da experiência pessoal de Smith é que ambas as garotas trabalham como atendentes, mesmo que os tipos de estabelecimento sejam distintos.
Seus últimos 2 filmes são um retorno ao familiar, à New Jersey, revisitando histórias e personagens de Clerks. Mas não tiveram boa recepção – mas seus fãs gostaram.
É notável o declínio na qualidade e nos temas abordados por Smith antes e depois da droga.
Kevin sóbrio
Depois de um infarto windowmaker em 2022 e de uma crise de saúde mental em 2023, Kevin Smith abandonou de vez a maconha. Nunca mais fumou [3]. Bom para ele. Mas a década e meia que ele disperdiçou na nóia são irrecuperáveis.
Links
[1] Back to the Well: Clerks 2 [FULL Documentary] – YouTube
https://www.youtube.com/watch?v=VnXeXrMk0Vo
[2] We’re Not Even Supposed to Be Here Today | 3 Decades of Clerks – YouTube
https://www.youtube.com/watch?v=OGSD7VHqP2M
[3] Kevin Smith QUIT Weed Permanently – YouTube
https://www.youtube.com/watch?v=SYg1Je9YF7E
